terça-feira, 1 de dezembro de 2015




OLHARES



E se você pudesse ver o mundo

Pelos olhos do homem emproado
Pelos olhos da mulher que sorri
Pelos olhos da menina que sonha
Pelos olhos do rapaz que reclama
Pelos olhos do bêbado que cambaleia
Pelos olhos da mãe que espera
Pelos olhos do velho que se dobra
Pelos olhos da noiva feliz
Pelos olhos do bebê que mama
Pelos olhos do cão que se assusta
Pelos olhos  que contemplam...

o que você veria? 

segunda-feira, 7 de maio de 2012




O LIVRO, UMA PAIXÃO NECESSÁRIA

"Oh! bendito o que semeia,
livros, livros à mão cheia
e manda o povo pensar".
Castro Alves
 
No Brasil do século 21, os livros serão agentes de transformação social. As crianças viajarão nas páginas ilustradas das sagas admiráveis. Os jovens debaterão o desenrolar de um romance machadiano. As pessoas da melhor idade lerão poemas dos novos autores, revivendo saudades.
Segundo Monteiro Lobato, que construiu com palavras um mundo de fantasia e felicidade, um país se faz com homens e livros. Homens e mulheres e jovens e crianças – e livros. Recordo de uma leitura antiga pela qual soube que, na Rússia dos sovietes, os camponeses liam volumes e mais volumes de literatura, nas noites frias do Ártico. O que queremos dar aos nossos filhos? Alguns, riquezas. Outros, títulos honrosos. Bill Gates, o criador do Windows, diz: primeiro, os livros.
O livro comove, marca a alma, sacia as sedes e fomes do ser humano. Quando ele fala, a alma responde. Fechado, pode ser objeto de colecionador. Aberto e digerido, provoca sensações desconhecidas e possibilita novos jeitos de caminhar. Os olhos, dantes cerrados, abrem-se e vislumbram as sendas que conduzem para além do horizonte. Os pés, inertes e tesos, ganham forças e mobilidade. As mãos, lentas ou céleres, deixam suas impressões nas páginas folheadas. O texto, em cordial atitude, marca indelevelmente a alma de quem o lê.
Lançado como sêmen nas mentes virginais, o livro produzirá, após os sintomas da gestação, os brotos abençoados. Palavras que formam frases, frases grávidas de idéias, idéias que viram sonhos – sonhos que suscitam a vida.
Num emaranhado de teias vai o leitor caminhando, reconhecendo a si mesmo nos livros que pensa ler. O livro é casulo que envolve plenamente o leitor, retendo-o pelo tempo necessário para transformá-lo em borboleta esvoaçante que colore a primavera. Quando leio o livro, acredito que o livro me lê. Leal, guarda em si todos os meus segredos.
Meu pai lia muito, sentado à porta do Quartel de polícia, onde servia como militar. Meu pai nunca me disse: "Leia". Um dia, porém, catando trastes velhos no quintal de casa para fazer brinquedos, encontrei um livrinho sem fim e sem princípio. Quedei absorto, no silêncio do crepúsculo, transportado que fui para uma pradaria do Arizona (EUA), onde um caubói acordava sentindo cheiro de toucinho... Meu pai foi meu exemplo, e meu primeiro incentivo.
Comecei ali a minha jornada. Uma jornada que passou pelos livros populares em papel jornal e chegou aos grandes clássicos. Uma jornada por um universo mágico e sem fronteiras. Uma jornada pela Bíblia, pela Morte de Ivan Ilitch, pelas Cidades Invisíveis, pelas Memórias Póstumas de Brás Cubas. Jornada que jamais finda. Recomeça sempre, ao abrir um novo ou velho livro.

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012




PARTILHA

Quem ficará com a camisa do finado? E seus velhos
Sapatos, gastos de um lado apenas? E seus óculos
Com pernas escambetadas? Alguém há de querer
Este par de meias, visto que só as calçou umas duas
Vezes: na missa de sétimo dia do compadre João
E na formatura da primeira neta.

Possivelmente haverá quem queira a cadeira
De balanço na primeira sala diante da televisão,
Onde ele, já senil, cumprimentava todas as noites
A moça do telejornal. O caneco desbeiçado
No qual bebia água, molhando os cantos da boca
E até a blusa, quem o levará? Já não terá sede
No mundo para o qual definitivamente se foi.

Pensava sempre em viajar. E dizia-o. Queria
Conhecer o frio de Porto Alegre, as cataratas
Do Iguaçu, a coisa mais linda deste mundo.
E visitar Fidel em Cuba. Estava planejando reformar
A casa, esta casa velha e abandonada. Mas agora
Nada mais será feito, nenhum cimento será gasto.

O corpo do velho está sepultado em sua última
E inexorável moradia, ao lado da tão amada esposa
Que o deixara alguns meses antes. Quem ficará
Com os sorrisos dele, espalhados por toda a casa?
E quem, com as preocupações e tristezas, que,
Algumas vezes, encobriam o seu olhar?

Quem estará disposto, finalmente, a guardá-lo sem
Qualquer senão, numa casinha bem iluminada
Nas vielas do coração?



sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012









Gaivota


Porque não sou poeta e o que escrevo
São apenas fragmentos de minha alma,
Estou livre como qualquer pássaro migrante,
Para alçar novos voos. Se antes voei,
Foi entre as grades da gaiola, bebendo
No cocho e batendo as asas.

Posso voar agora porque é outono.

Posso fotografar do alto os milharais amarelos
Ansiosos pela colheita, as sinuosas trilhas
Com seus segredos, as fazendolas, as cidades.
Minhas asas estão mais fortes, cada vez mais.

Posso voar agora porque é outono.

Após cada revoada - se beijo a lâmina do mar,
Se me perco nas alucinantes alturas - suo e rio.
Voar e voar, eis o que me atrai.
Às vezes contra o vento, às vezes sob tempestades.
Às vezes acima das nuvens – flocos de algodão.
Às vezes, como Ícaro, de encontro ao sol.
Voar e voar, eis o que me atrai.

Porque não sou poeta.
E o que escrevo são meros fragmentos de minha alma,
Estou livre e posso cantar.