sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012




PARTILHA

Quem ficará com a camisa do finado? E seus velhos
Sapatos, gastos de um lado apenas? E seus óculos
Com pernas escambetadas? Alguém há de querer
Este par de meias, visto que só as calçou umas duas
Vezes: na missa de sétimo dia do compadre João
E na formatura da primeira neta.

Possivelmente haverá quem queira a cadeira
De balanço na primeira sala diante da televisão,
Onde ele, já senil, cumprimentava todas as noites
A moça do telejornal. O caneco desbeiçado
No qual bebia água, molhando os cantos da boca
E até a blusa, quem o levará? Já não terá sede
No mundo para o qual definitivamente se foi.

Pensava sempre em viajar. E dizia-o. Queria
Conhecer o frio de Porto Alegre, as cataratas
Do Iguaçu, a coisa mais linda deste mundo.
E visitar Fidel em Cuba. Estava planejando reformar
A casa, esta casa velha e abandonada. Mas agora
Nada mais será feito, nenhum cimento será gasto.

O corpo do velho está sepultado em sua última
E inexorável moradia, ao lado da tão amada esposa
Que o deixara alguns meses antes. Quem ficará
Com os sorrisos dele, espalhados por toda a casa?
E quem, com as preocupações e tristezas, que,
Algumas vezes, encobriam o seu olhar?

Quem estará disposto, finalmente, a guardá-lo sem
Qualquer senão, numa casinha bem iluminada
Nas vielas do coração?



sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012









Gaivota


Porque não sou poeta e o que escrevo
São apenas fragmentos de minha alma,
Estou livre como qualquer pássaro migrante,
Para alçar novos voos. Se antes voei,
Foi entre as grades da gaiola, bebendo
No cocho e batendo as asas.

Posso voar agora porque é outono.

Posso fotografar do alto os milharais amarelos
Ansiosos pela colheita, as sinuosas trilhas
Com seus segredos, as fazendolas, as cidades.
Minhas asas estão mais fortes, cada vez mais.

Posso voar agora porque é outono.

Após cada revoada - se beijo a lâmina do mar,
Se me perco nas alucinantes alturas - suo e rio.
Voar e voar, eis o que me atrai.
Às vezes contra o vento, às vezes sob tempestades.
Às vezes acima das nuvens – flocos de algodão.
Às vezes, como Ícaro, de encontro ao sol.
Voar e voar, eis o que me atrai.

Porque não sou poeta.
E o que escrevo são meros fragmentos de minha alma,
Estou livre e posso cantar.